Por que ver os clssicos


Marcelo Spalding


talo Calvino tem uma obra de grande importncia para os estudos literrios chamada Por que ler os clssicos. Mais do que defender uma lista fixa de obras obrigatrias, a coletnea de ensaios procura explicar o que faz um livro atravessar o tempo e continuar relevante para diferentes geraes.

Os ensaios em si podem se mostrar desafiadores mesmo para um leitor experiente, em funo de referncias um tanto eruditas e nem sempre conhecidas do leitor contemporneo, mas o texto introdutrio do livro se tornou um dos textos mais importantes do sculo XX. Nele, Calvino busca algumas definies sobre o clssico, e tomo a liberdade de reproduzir aqui a sntese de algumas delas:

> Os clssicos so aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: Estou relendo e nunca estou lendo;

> Os clssicos so livros que exercem uma influncia particular quando se impem como inesquecveis e tambm quando se ocultam nas dobras da memria, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual;

> Toda releitura de um clssico uma leitura de descoberta como a primeira;

> Toda primeira leitura de um clssico na realidade uma releitura;

> Um clssico um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer;

> Os clssicos so aqueles livros que chegam at ns trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrs de si os traos que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes);

> Os clssicos so livros que, quando mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando so lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inditos;

> O seu clssico aquele que no pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a voc prprio em relao e talvez em contraste com ele.

> Um clssico um livro que vem antes de outros clssicos; mas quem leu antes os outros e depois l aqueles, reconhece logo o seu lugar na genealogia;

> clssico aquilo que tende a relegar as atualidades posio de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo no pode prescindir desse barulho de fundo;

> clssico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatvel.

Poderamos discorrer sobre cada uma das afirmaes, gosto muito da reflexo sobre a importncia dos temas atuais em um clssico, por exemplo, mas a ideia deste texto afinal estamos em um espao para falar de viagens transpor o conceito para as artes visuais. Porque no se vai at determinada cidade em busca do manuscrito original de um autor para conhec-lo pessoalmente, a reproduo e circulao de livros e textos aceita e altamente incentivada h sculos. Mas para se conhecer Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, O Nascimento de Vnus, de Botticelli, Abaporu, de Tarsila do Amaral ou A Piet, de Michelangelo, preciso viajar, pagar ingresso, entrar em fila. E mesmo para quem no entendido de artes visuais como eu no sou vale muito o esforo.

Como escreve Calvino, os clssicos so aqueles livros que chegam at ns trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrs de si os traos que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes). Ento estar sob a incrvel obra de Michelngelo na Capela Sistina a famosa A Criao de Ado, aquela imagem em que os dedos de Deus e Ado quase se tocam no apenas ver ao vivo uma obra to reproduzida em livros ou telas, estar em um local onde Michelangelo esteve, local da eleio de papas, da controversa histria da Igreja, locao de filmes conhecidos, cenrio de romances populares.

Cada obra clssica traz consigo toda uma histria para alm da pintura ou escultura em si, e essa energia a gente sente estando naquele local. Estar diante da Vnus de Milo, no Museu do Louvre, se conectar com a milenar tradio grega, admirar a permanncia da cultura, das gentes e da obra em si. Mesmo uma escultura despretensiosa como o secular Porcelino de Florena ou uma rplica como o David diante do Palazzo Vecchio, tambm em Florena, so capazes de nos arrancar um suspiro, um sorriso, um uau. Faz com que ao mesmo tempo percebamos o quo pequenos somos diante de toda histria da humanidade, mas tambm como somos parte dessa histria, estamos ali a testemunhando, participando dela, a mantendo viva.



O MASP e Abapuru

Embora eu tenha ficado muito encantado com os clssicos na Itlia e na Frana, o que me incentivou a escrever esta crnica no foram minhas incurses na Europa, foi antes, em uma viagem a So Paulo com uma visita ao MASP que terminou em pequena frustrao.

Eu j havia visitado o museu na adolescncia, mas depois acabei voltando a So Paulo apenas a trabalho. Com o foco ps-pandemia de viajar o mximo possvel, optamos por passar uns dias turistando em So Paulo, e dessa vez a visita ao MASP foi um dos pontos altos (ao lado dos musicais e do Ibirapuera, diga-se de passagem).

O MASP ponto obrigatrio para quem mora no Brasil e gosta de viajar e de artes. Chegar ao acervo principal do terceiro andar e ver aquela imensido de quadros dispostos lado a lado, como em uma grande confraternizao, de impressionar. A comeamos a circular e descobrimos que estamos diante do mundo (pelo menos do mundo ocidental): Rosa e Azul (As Meninas), de Renoir, O escolar (O filho do carteiro Gamin au Kpi), de Van Gogh, Retrato de Suzanne Bloch (1904), de Pablo Picasso, Virgem com o Menino e So Joo Batista Criana, de Botticelli, Ressurreio de Cristo, de Rafael Sanzio, A Canoa Sobre o Epte, de Claude Monet, As tentaes de Santo Anto, de Hieronymus Bosch. Alm, claro, de obras fundamentais dos brasileiros Cndido Portinari, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e tantos outros.

o livro de histria, de literatura e de artes da nossa escola diante de nossos olhos. Mas senti falta de uma obra, o famoso Abaporu, de Tarsila do Amaral, que tambm no estava na Pinacoteca (outro importantssimo museu brasileiro, onde est, por exemplo, Mestio, de Portinari).

Descobri ento que o Abaporu est no MALBA, Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires. Questionamentos parte sobre o porqu de um dos quadros mais importantes do Brasil no estar no Brasil, colocamos o MALBA na lista de atraes a visitar na ida seguinte a Buenos Aires (onde praas e musicais, alis, tambm so protagonistas, junto com o encantador Puerto Madero).

Foi ento, diante da mais famosa pintura de Tarsila do Amaral, que caiu a ficha sobre a importncia de ver os clssicos. E lembrei da sensao de encantamento que tive diante de O Nascimento de Vnus, aquela multido ao redor tentando fotografar, ou apenas observando, ou alternando entre uma coisa e outra.

No caso de Abaporu, no apenas reconhecer aquele quadro to presente nos livros sobre o Modernismo, reconhecer a grandiosidade dos traos, a forma como ele nos transporta por aquelas linhas, ainda que seja ele to pequeno no original.



Sndrome de Stendhal

J que comeamos esse texto escrevendo sobre um autor, vamos terminar com outro, Stendhal. O clebre romancista francs, autor do clssico monumental O vermelho e o negro, durante sua visita Baslica de Santa Croce em Florena, Itlia, aps observar os famosos afrescos de Giotto no teto, ficou extremamente emocionado com o que viu, e descreveu a sensao nas seguintes palavras em 1817:

Eu ca numa espcie de xtase, ao pensar na ideia de estar em Florena, prximo aos grandes homens cujos tmulos eu tinha visto. Absorto na contemplao da beleza sublime, cheguei ao ponto em que uma pessoa enfrenta sensaes celestiais Tudo falava to vividamente minha alma Ah, se eu to-somente pudesse esquecer. Eu senti palpitaes no corao, o que em Berlim chamam de nervos. A vida foi sugada de mim. Eu caminhava com medo de cair.

Somente nos anos 1980 a psiquiatra italiana Graziella Magherini descreveu e nomeou a sndrome, hoje conhecida como Sndrome de Stendhal. Consta que ela trabalhava em hospitais de Florena e observou turistas apresentando crises emocionais aps visitar museus como a Galleria degli Uffizi. Um fenmeno psicolgico em que uma pessoa apresenta reaes fsicas e emocionais intensas ao entrar em contato com obras de arte, arquitetura ou experincias estticas consideradas muito impactantes.

Talvez seja essa sensao mas em uma dose confortvel e saudvel que nos acometa diante dos clssicos, sejam eles da literatura ou das artes visuais. E fica claro, pelas palavras de Stendhal, ele prprio hoje um reconhecido clssico, que pode acometer mesmo aqueles capazes de fazer parte desse panteo.


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Viagens Crnicas, por Marcelo Spalding

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