Bambino a Roma, um passeio pela infncia de Chico Buarque na capital italiana


Marcelo Spalding


Hoje h poucas unanimidades, mas me parece que Chico Buarque (ainda) uma delas, pelo menos quando se pensa em suas msicas. E Roma sem dvidas segue sendo uma unanimidade para quem gosta de viajar e conheceu a capital italiana caso no conhea, sugiro colocar no topo da sua lista de prioridades, com uma passagem por Veneza. Pois partindo dessa premissa, imaginei que um livro de Chico Buarque que se passa em Roma s poderia ser maravilhoso, certo? Bem

Bambino a Roma (Companhia das Letras, 2024), o mais recente romance de Chico Buarque, se apresenta ao leitor como um leque de impresses de uma infncia vivida e imaginada, tendo nas memrias de Chico a matria-prima para sua fico. Mas apesar dessa chamada da sinopse, a capa do livro traz logo abaixo do ttulo a expresso Fico, como para no deixar dvidas de que os episdios ali narrados no aconteceram de fato na vida de Chico (frmula j vista em O Irmo Alemo, livro anterior do autor).

a que reside, para mim, a maior fraqueza do livro: ele no tem um enredo envolvente ou profundo suficiente para se justificar apenas como fico. E ao no se assumir como memrias, ficamos em dvida se os episdios mais interessantes so reais o que os tornariam dignos de figurar no livro e nos fazer tomar tempo para l-los ou no. Fica no meio do caminho, como se fosse um livro de memrias envergonhado ou uma fico presa a fatos no to dignos de um romance.

Para quem visitou Roma, ler sobre suas caminhadas ou pedaladas pelas ruelas da cidade, as menes Fontana Di Trevi, ao Coliseu, ao Vaticano, Trastevere, o prprio cotidiano de uma criana brasileira tentando se adaptar vida europeia uma delcia. Mas o cenrio no protagonista na narrativa, no explorado a ponto de justificar o livro ou fazer com que um viajante tenha de ler.

Talvez at mais interessante seja a viagem no tempo. O livro se passa entre 1953 e 1954, perodo no qual o pai de Chico morou na Itlia, sem contar as dezenas de menes a hbitos e tecnologias que hoje praticamente no existem mais, do jogo de bola na calada aos mapas em papel. Alm disso, Roma em particular e a Europa em geral ainda sofriam as consequncias da Segunda Guerra, ento parece que a pobreza ou mesmo o perigo eram muito maiores.

A Roma de hoje prspera, muito movimentada, repleta de turistas, carros modernos, prdios bem conservados, nibus eltricos, lojas de marca, poucos pedintes ou achacadores pelas ruas e uma boa sensao de segurana, mesmo noite pelo menos na rea dentro das muralhas aurelianas.

Voltando ao livro, embora no tenha funcionado para mim enquanto romance ou mesmo como livro de memrias Verdade Tropical, de Caetano Veloso, por exemplo, mil vezes melhor nesse aspecto , h cenas muito bonitas e que talvez eu nunca mais esquea, como a da descoberta de uma edio em italiano do livro do seu pai. Ou a dana do menino com a me de seu coleguinha de escola que, mal sabia ele, era uma diva do cinema italiano. Este trecho, alis, gostaria muito de saber se real ou fico.

Vale dizer que no a primeira incurso ficcional de Chico por paisagens europeias. Budapeste, o terceiro romance do autor, publicado em 2003, trata da vida do ghost-writer carioca Jos Costa, que vai buscar refgio em Budapeste e no idioma hngaro para seus dilemas existencialistas. Mas assim como em Bambino a Roma, a cidade descrita por uma lente bastante simblica, ficando sempre como plano de fundo da subjetividade do autor.


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Viagens Crnicas, por Marcelo Spalding

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