Viagens, dilemas e estereótipos em The White Lotus


Marcelo Spalding


Alguns seriados se notabilizam pelo suspense, outros pela ação, alguns pela comédia, e há aqueles que se notabilizam pelo texto. The White Lotus, de Mike White, se enquadra neste último grupo.

A primeira temporada estreou em 11 de julho de 2021, na HBO. Foi inicialmente concebida como uma minissérie, mas o sucesso levou à continuação e já saíram três temporadas, com a quarta confirmada para 2027.

A proposta é simples, e por isso mesmo eficiente: cada temporada se passa em uma filial diferente da rede de resort de luxo White Lotus. A primeira é no Havaí, a segunda na Sicília e a terceira na Tailândia. O cenário é parte importante de cada temporada, com imagens deslumbrantes de cada um deles, personagens locais (talvez os mais interessantes das histórias) e até diálogos nos idiomas nativos.

O protagonismo é dividido entre vários núcleos familiares, e também mudam de temporada para temporada, permanecendo apenas alguns personagens secundários de uma para a outra. Essa alternância faz com que o foco seja muito mais nos assuntos, nos dilemas, na representação social do que nas pessoas.

O texto se notabiliza pelo sarcasmo e acidez, mas é muito mais uma série reflexiva do que cômica (embora a segunda temporada renda boas gargalhadas). White Lotus não é apenas uma viagem geográfica, mas também social: somos transportados para um suposto comportamento típico dos ricos (ou super ricos?) com suas neuroses, extravagâncias, exageros.



Erros e acertos

Essa tentativa de representar um grupo social de forma caricata e genérica talvez seja o maior defeito da série. Vale inclusive retomar aqui o conceito de estereótipo, segundo o Dicionário Michaelis: “padrão formado de ideias preconcebidas, resultado da falta de conhecimento geral sobre determinado assunto; imagem, ideia que categoriza alguém ou algo com base apenas em falsas generalizações, expectativas e hábitos de julgamento.”

É muito divertido rir desses riquinhos – vários herdeiros, a maioria escrotos –, pensar em como somos superiores emocional e intelectualmente a eles – mesmo fazendo contas para fechar o mês –, mas a verdade é que não se pode tomar os personagens como regra. Assim como nem todo turista ou hóspede de resort é mimado, deslumbrado ou se entendia facilmente.

Esses estereótipos, aliás, se estendem a outros recortes sociais. As mulheres mais velhas são representadas como loucas, ou pelo menos à beira de um ataque de nervos. Os homens, como seres alucinados ou tarados, quando não os dois. As adolescentes, como hipócritas, interesseiras e arrogantes. Quem se salva são os adolescentes meninos (como não torcer por Quinn Mossbacher, interpretado por Fred Hechinger?) e as mulheres adulto-jovem (como não amar Chelsea, interpretada por Aimee Lou Wood?).

Para quem gosta de viajar, três aspectos chamam muito a atenção: as exuberantes imagens dos locais que servem como cenário, especialmente nas temporadas dois e três; os bastidores de um hotel, ainda que aqui seja um resort luxuoso estereotipado; e a percepção de que mesmo esses ricos ou super ricos têm perrengues como quartos com péssimo isolamento acústico, perda de mala e golpistas.

Mas o grande destaque do seriado é mesmo o texto, muito encaixado, coeso, redondo, que instiga e recompensa o espectador (exemplo maravilhoso é o liquidificador da terceira temporada). Provocativo, sagaz, irônico, você nunca tem certeza se a controversa opinião de um personagem é a real intenção do seriado ou seu inverso.

No fim, não importa: são os temas e dilemas propostos pelo seriado que permanecem depois de cada temporada. E a gente, mesmo não sendo rico ou super rico, acaba se identificando.




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Viagens Crônicas, por Marcelo Spalding

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