La Chascona: um tributo democracia do casal Pablo Neruda e Matilde Urrutia


Marcelo Spalding


Dia 23 de setembro de 1973, apenas doze dias depois do brutal assassinato de Salvador Allende, com bombardeios ao Palacio de La Moneda e a tomada de poder pelos militares, liderados por Augusto Pinochet, morreu Pablo Neruda. Sua morte ainda hoje envolta em mistrio, com suspeita de envenenamento por parte do regime.

Smbolo dessa selvageria foi o que fizeram com La Chascona, casa do poeta em Santiago. Grupos de extremistas pr-ditadura invadiram a casa quando Neruda ainda estava na clnica, antes mesmo de sua morte. Eles saquearam objetos pessoais, reviraram mveis e papis, quebraram portas, vidros e luminrias, arrancaram canos de gua, causando um alagamento que destruiu parte da biblioteca e documentos, derrubaram e tentaram destruir o retrato de Matilde Urrutia pintado por Diego Rivera, que tinha caractersticas claramente polticas (o rosto de Allende aparece refletido no olho de Matilde).

Mesmo assim, La Chascona serviu como ponto de resistncia. O velrio de Neruda aconteceu na casa parcialmente destruda e com as marcas da invaso visveis. Mesmo sob vigilncia militar, centenas de pessoas acompanharam o cortejo pelas ruas de Santiago, transformando o funeral num dos primeiros atos pblicos de protesto contra a ditadura de Pinochet.

Parte dessas informaes esto no belo vdeo apresentado aos visitantes de La Chascona, uma das trs casas-museu onde viveu o poeta abertas visitao no Chile. Localizada no bairro Bellavista, Santiago, a casa foi construda em 1953 por Pablo Neruda para Matilde Urrutia, que na poca era sua amante. O nome um apelido carinhoso: La Chascona significa "a descabelada", referncia ao cabelo volumoso e indomvel de Matilde.

Foi erguida encostada no Cerro San Cristbal, num lote estreito e muito inclinado condies que dificultavam qualquer projeto convencional. Em vez de brigar com o terreno, o arquiteto fez o oposto: aproveitou os desnveis para criar ambientes no estilo "cabine de navio", desenhou corredores estreitos, escadas tortas e janelas assimtricas e usou a inclinao para criar vistas nicas de Santiago, como se fosse um convs de barco mirando a cordilheira.



Essa vista hoje no existe mais, tanto pela construo de prdios e centros comerciais mais altos quanto pela poluio, que impede a visibilidade da Cordilheira. Mas a engenhosidade da casa impressiona, quase um conjunto de cmodos, com destaque para o simptico Bar de Vero, onde o casal recebia convidados, tomava sol, fazia refeies ao ar livre, aproveitando um espao alto do ptio. Hoje ganhou uma porta de vidro para resguardar os objetos de decorao ali expostos.

Para os visitantes, uma casa de subidas e descidas, com algumas escadas ngremes e irregulares. A combinao de interior e exterior muito curiosa, estamos dentro da casa e de repente estamos no ptio.

Comparando com as outras casas do poeta, esta casa muito mais sobre Matilde do que sobre Neruda e com justia. Matilde se negou a abrir mo da casa e se dedicou a restaurar La Chascona: recuperou o quadro de Rivera; restaurou mveis e objetos que puderam ser salvos; reconstruiu reas inteiras tomadas pela gua. Fez isso praticamente sozinha, sem apoio do governo, movida por memria, afeto e resistncia cultural. Mais tarde, com o fim da ditadura, a Fundao Pablo Neruda assumiu o cuidado da casa, preservando-a como museu.

Para visitar seu interior, preciso sorte ou encarar grandes filas. Conforme relatamos neste texto, no se adquire ingresso com antecedncia nem se agenda horrios. J para acessar a loja-livraria, com algumas edies de livros do poeta e outros poetas chilenos, alm de diversos souvenirs alusivos s casas e a Neruda, voc pode entrar sem necessidade de aguardar ou pagar ingresso ao museu.

+ clique aqui para ler texto sobre As casas de Pablo Neruda no Chile

+ clique aqui para ler um texto sobre La Sebastiana (casa de Valparaso)



A regio do Bellavista em Santiago


A melhor dica para turistas que desejam visitar La Chascona fazer isso aps um passeio pelo Cerro San Cristbal, descendo de funicular em direo a Bellavista. Alm da casa, o bairro uma atrao por si.

Nos anos 19401950, artistas comearam a se mudar para Bellavista. Isso inclui pintores como Camilo Mori e Nemesio Antnez, alm de escritores como Neruda. A presena do poeta, de sua casa pitoresca e as visitas de intelectuais e artistas deram ao bairro um carter cultural, tornando-se um polo de criao, encontros artsticos e boemia.

Antiga arquitetura casas antigas, cits (velhas moradias operrias ou de classe mdia), ruas estreitas convive com a renovao: muitos desses imveis foram adaptados para bares, galerias, centros culturais, hostels, boutiques, etc. Destaque para o Ptio Bellavista, moderno espao cultural e gastronmico com restaurantes com ptio e bares que fica bem em frente casa inclusive roubando-lhe parte da vista.


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Viagens Crnicas, por Marcelo Spalding

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