As históricas Feiras do Livro de Porto Alegre e Caxias do Sul


Marcelo Spalding


Há 71 anos, o Centro de Porto Alegre se transforma em novembro e se torna um dos pontos culturais mais efervescentes do país com a Feira do Livro de Porto Alegre. Maior feira do livro a céu aberto da América Latina, é realizada na tradicional Praça da Alfândega, entre museus e restaurantes, com mais de 70 expositores de livros e uma vasta programação de oficinas e palestras gratuitas.

Diferentemente das bienais, em que não apenas se paga para entrar como lá dentro tem de tudo, até livro, e a competição do estande mais suntuoso por vezes ofusca a qualidade do catálogo, na Feira do Livro de Porto Alegre é proibido vender outro produto que não livros, e os estandes seguem um padrão semelhante, o que não apenas lhe concede um caráter mais tradicional como nos permite focar naquilo que gostamos, os livros em si. Para se ter uma ideia de como a Feira mobiliza a comunidade de autores, são mais de 650 sessões de autógrafos, envolvendo quase 1000 autores ao longo dos mais de 20 dias de evento.

Para quem visitar a Feira, vale passear também pelo Centro Histórico de Porto Alegre, com diversos prédios centenários em pleno funcionamento, mesmo depois da Grande Enchente de 2024, que deixou essa região da cidade abaixo d’água. Ao redor da Praça da Alfândega, onde acontece a Feira do Livro, há o Centro Cultural Erico Verissimo, MARGS, Memorial, Santander. Um pouco mais adiante, temos a Casa de Cultura Mario Quintana. Subindo para a parte alta do Centro, ao redor da Praça da Matriz estão a Catedral, o Palácio do Governo, a Biblioteca Pública e o Theatro São Pedro.


Uma Feira do Livro que se multiplicou


A Feira do Livro de Porto Alegre modificou não apenas o panorama da Capital. Sua importância é tão grande que centenas de outras Feiras do Livro se espalharam por escolas e municípios do Rio Grande do Sul, multiplicando o acesso ao livro, o inventivo à leitura e a promoção do lazer e do turismo locais. Pequenas localidades, como Morro Reuter, se tornaram reconhecidas pela qualidade de suas Feiras. Tal movimento pode ser um dos motivos para os índices de leitura do Estado. Segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro, entre aqueles que leem no RS a média é de 7,6 livros por ano, bastante superior à média nacional, de cerca de 4 livros por ano.



Foto de Tatiele Sperry

Em 2025, uma dessas Feiras, a Feira do Livro de Caxias do Sul, segunda maior e mais importante do Estado, celebrou seus 40 anos comemorados em 2024 com a publicação de um belo livro sobre sua história, Sob o olhar de Dante, escrito pelo jornalista Dinarte Albuquerque Filho. Com linguagem jornalística e costurando fatos importantes da época com episódios detalhados de cada Feira, é um documento precioso sobre a formação, consolidação e, claro, desafios e contradições de um evento literário como este.

Uma das passagens mais emocionantes recordadas pelo livro é o lançamento, em 1985, do livro O Quatrilho, na própria feira de Caxias do Sul. O autor, José Clemente Pozenato, dez anos depois seria patrono da Feira, quando já havia se tornado um nome nacionalmente conhecido pela repercussão do filme de Fábio Barreto, com Glória Pires e Patricia Pillar, um dos primeiros brasileiros indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro depois de muito tempo.

O romance conta a história de dois casais italianos que remete aos primeiros anos de ocupação do Campo dos Bugres (atual Caxias do Sul), mostrando as origens agrícolas e comerciais da região enquanto desenvolve uma intrincada trama sobre relacionamentos entre os casais.

José Clemente Pozenato, vale lembrar, faleceu justamente em novembro de 2024, logo após a 40ª Feira do Livro.


A cidade de Caxias do Sul



Caxias do Sul é a segunda maior cidade do Estado depois de Porto Alegre, e a maior da famosa Serra Gaúcha. Com população superior a 400 mil habitantes (está entre as 50 maiores do país), é reconhecida pela permanente presença da cultura italiana, cujos imigrantes fundaram a cidade em 1890 – então um local inóspito, de dificílimo acesso, mas que se tornou oportunidade de recomeço para centenas de família assoladas pela fome e pela miséria da Itália pós-unificação.

Embora não seja uma cidade com foco no turismo, como suas vizinhas Gramado, Canela, Bento Gonçalves e Carlos Barbosa, ficou nacionalmente famosa pela quase centenária Festa da Uva, cuja primeira edição se realizou em 1932 e hoje atrai cerca de um milhão de pessoas. Vale lembrar que em 1972 o desfile da Festa da Uva foi a primeira transmissão a cores da televisão no Brasil.

Afora a Feira do Livro e a Festa da Uva, há roteiros e localidades que permitem ao turista conhecer a história da região e dos imigrantes enquanto tem a oportunidade de saborear pratos tradicionais e apreciar paisagens características, como Ana Rech e o recém-inaugurado Villa dei Troni.

Outro ponto de destaque é a Igreja de São Pelegrino, claramente inspirada nas tradicionais igrejas do Vaticano, com uma grande e importante série de pinturas de Aldo Locatelli, notáveis portas em bronze e uma réplica da Pietà de Michelangelo doada pelo Papa Paulo VI em 1975, nos cem anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul.


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Viagens Crônicas, por Marcelo Spalding

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