Marcelo Spalding

É um clichê antigo dizer que a literatura nos faz viajar, pelos mundos que cria e expõe, pela imersão que proporciona. Mas há livros, mesmo de ficção, que de fato colocam o protagonista na estrada – e também o leitor. “On the road”, de Jack Kerouac, publicado em 1957, talvez seja o mais célebre do que se convencionou chamar de “road novel”, celebrando a liberdade, a estrada e a busca por novos sentidos para a vida. Neste tipo de livro, quem gosta de viagens e literatura tem uma dupla satisfação: uma boa história, com bons conflitos, boas frases, e um passeio por cidades e lugares diferentes.
Ruína y Leveza (2015, Editora Dublinense), de Julia Dantas, cuja segunda edição foi lançada em 2025, se encaixa muito bem nessa definição. Já nas primeiras páginas, a protagonista Sara se embreta em uma mina terrestre no interior da Bolívia quando há um terremoto que a aprisiona no fundo da terra, ela e seu companheiro de aventura, Lucho. Daí a obra inicia uma sucessão de flashbacks sobre os motivos que levaram a protagonista àquele tempo e espaço específicos, uma viagem interior de Sara às suas escolhas, amores, erros e acertos.
Para sorte de quem gosta de viajar, no ápice de sua crise existencial Sara resolve ir para o lugar mais longe que seu orçamento permite. Assim acompanhamos a personagem pelas cidades e estradas do Peru, com deliciosas e realistas descrições de Lima, Cuzco, Nazca, Huancayo, Lago Titicaca.
“Cuzco foi a primeira cidade peruana bonita em que pousei os sapatos, o que dificultava o propósito de odiá-la. Era exuberante na arquitetura, ao contrário das construções quadradas e sem pintura que em Huancayo e em Nazca faziam as vezes de casas. Tinha um sedutor centro histórico e gente de todos os lugares do mundo caminhando em ruelas estreitas. As igrejas e mansões coloniais se erguiam sobre pedras incas em matizes de marrom e eram cobertas por telhas avermelhadas: o mundo em tons de cores quentes. Para uma cidade talhada em pedra e desenhada entre casarões e escadarias, sem árvores, sem verde, era imprevisto como eu gostava de estar ali. Cuzco tinha vida própria, respirava sob meus pés. Uma cidade erguida em história e, apesar dos balcões espanhóis e das mansões coloniais, ainda se podia sentir reverberar debaixo da terra tempos mais antigos, dias mais gloriosos. (p.80)”

Uma ausência sentida no livro é por Machu Picchu. A personagem menciona a cidade mas não vai para lá, o que é verossímil diante do seu objetivo de viável, da fuga dos clichês. “Achei que é um lugar que todo mundo já tem uma imagem na cabeça e que não haveria descrição literária que realmente pudesse ser original. Além disso, numa história que se passa no Peru, provavelmente os leitores já esperam que o ápice seja Machu Picchu, e eu quis quebrar essa expectativa”, revela a autora.
Por outro lado, o sobrevoo da personagem às linhas de Nazca é um dos pontos altos do livro. Façamos o passeio pelas linhas de Julia Dantas antes de comentar:
“O aeroporto de Nazca era o mais assustador que eu já tinha pisado e o aviãozinho onde nos colocariam não deixava por menos. A pista consistia em uma trilha de cimento com muitas rachaduras e poucas luzes laterais. Por sorte, tudo foi rápido o bastante para que eu não pudesse desistir. (…) Para que pudéssemos ver alguma coisa, o avião precisava fazer curvas que deixavam as janelas paralelas ao chão, manobras que fizeram todos agarrarem-se com afinco aos sacos plásticos. Meu colocar sacudia e batia no meu rosto. Tive que colocá-lo para dentro da blusa. Mas algum fenômeno que não posso nomear – deslumbre, encanto, surpresa – me fez esquecer da existência do meu estômago. Mesmo se julgadas pelos critérios estéticos da arte ocidental contemporânea, as linhas eram limpas e belas e sua inexplicabilidade realçava a beleza. E eram imensas, invisíveis para quem passasse por elas caminhando, só podiam ser observadas do alto.” (p.48)
Neste ponto Sara recém iniciara sua aventura e ainda estava em plena crise existencial (leia-se com um humor nada apropriado para uma viajante), diria até incomodada com certa precariedade que parece tê-la surpreendido nas famosas cidades, mas o encanto das linhas se impõe, e ela se permite “deslumbre, encanto, surpresa”. São esses momentos, exatamente esses momentos que viajantes buscam, que fazem valer a pena, os segundos inesquecíveis dentro de todos os desafios.

A autora, Julia Dantas, é um dos nomes mais promissores da literatura brasileira contemporânea, com uma obra que já inicia com prêmios e reconhecimento de mídia, público e boas editoras. Publicou “Ruína y leveza” em 2015, e o livro foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Em 2020, foi co-organizadora da antologia “Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade” e publicou o folhetim “Pássaros da cidade” na revista Parêntese. Seu segundo romance, “Ela se chama Rodolfo”, saiu em 2022 pela editora DBA e venceu os prêmios AGEs Livro do Ano e o prêmio Alcides Maya da Academia Rio-Grandense de Letras. Em 2024 lançou pela Editora Dublinense “A mulher de dois esqueletos”.
“Ela se chama Rodolfo” é um dos romances mais interessantes para se pensar sobre questão de gênero que eu já li. Porque ele se recusa a ser apenas sobre isso, mantendo uma história envolvente sobre um homem recém-separado que aluga um apartamento e se depara com uma tartaruga. Em contato com a proprietária do apartamento, ela indica endereços para onde ele pode levar o animalzinho, mas todos o rejeitam, em uma jornada deliciosa pelos bairros de Porto Alegre – e também pelas suas gentes, e também pelo interior do protagonista. Como em “Ruína y leveza”, mas nesta obra as viagens são dentro da cidade, o que reforça que viajar talvez seja principalmente sair da rotina.
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